Celebrando o Record Store Day!

Record Store Day

por Luther Blissett

Todo ano, a data mais aguardada pelos fãs de discos — em formato físico — é o Record Store Day. Em bom português, o “Dia da Loja de Discos”. Celebrado sempre no terceiro sábado de abril, o evento é marcado por shows especiais, sessões de autógrafos, promoções, descontos, queimas de estoque e, principalmente, uma série de lançamentos exclusivos em edições limitadas, realizados principalmente em vinil.

Na verdade, o Record Store Day nasceu como uma reação à indústria da música. Com o advento do CD, os estabelecimentos que trabalhavam exclusivamente com vinil foram fechando. Em seguida, as próprias lojas de CD acabaram sendo encurraladas pelas megastores e grandes sites de venda que, ao fazerem compras em grandes quantidades (as vezes para toda uma rede de lojas), conseguiam barganhar preços imbatíveis. A livre disseminação da música em formato digital, pela internet, parecia ser o tiro de misericórdia. Tudo indicava que as lojas independentes de discos estavam com seus dias contados.

Joel Stones, na Tropicalia in Furs, portando um raro exemplar do LP Tim Maia Racional.

Joel Stones, na Tropicalia in Furs, portando um raro exemplar do LP Tim Maia Racional.

Mas não era apenas o desaparecimento de um tipo de comércio que preocupava o público consumidor de música em formato físico. Era toda a cultura que girava em torno das lojas que estava ameaçada. O ato de visitar um estabelecimento, encontrar outros colecionadores e fãs, trocar informações, receber dicas e orientações dos lojistas, ser apresentado a obras, poder garimpar por álbuns entre uma infinidade inimaginável de capas, ou até mesmo apenas contemplar o cenário e disco e mais discos e mais discos… O que parecia mais triste, para o fãs de música, era o desaparecimento de todo esse universo que permitiu sucessivas gerações levarem para casa seus fonogramas preferidos.

Foi quando em 2007, nos Estados Unidos, uma série de lojistas resolveu lançar uma espécie de campanha para manter viva as lojas independentes de discos! Inspirados pelo Free Comic Book Day (o “dia do gibi grátis”) idealizaram como deveria ser o Record Store Day: convidariam alguma celebridade — banda ou artista — como embaixador e divulgador da causa, as lojas convidariam nomes de peso para realizarem pocket shows dentro dos estabelecimentos e tentariam, com as gravadoras, o lançamento de algum título exclusivo, lançado no dia do evento e que seria vendido exclusivamente pelas lojas independentes. Seriam edições limitadas que obrigariam os fãs das bandas a irem até as lojas. Esses produtos de baixa tiragem não chegariam até as redes e megastores, e também não seriam vendidos pela internet.

Uma tradicional loja de discos

O primeiro Record Store Day aconteceu em 2008, envolvendo aproximadamente 300 lojas americanas e algumas inglesas. A banda Metallica foi a embaixadora “não oficial”, autografando itens para 500 fãs em uma loja. Aconteceram apenas 10 lançamentos na data. Entretanto, o evento repercutiu poderosamente dentro do meio musical, chamando a atenção de uma série de artistas para o futuro pouco promissor dos estabelecimentos.

No ano seguinte, mais de 1.000 lojas em 9 países participaram do Record Store Day. Cerca de 500 bandas e artistas realizaram aparições, sessões de autógrafos e pocket shows em lojas. A lista de lançamentos exclusivos cresceu para 85!

Picture Disc de Starman, de David Bowie: um daqueles cobiçados lançamentos exclusivos em edição limitada.

Picture Disc de Starman, de David Bowie: um daqueles cobiçados lançamentos exclusivos em edição limitada.

O aumento significativo nas vendas de discos de vinil fez as atenções se voltarem novamente para as lojas independentes, que foram as principais responsáveis em manter esse formato vivo. Logo, as grandes gravadoras começaram a reconhecer a importância das lojas e passaram a dar suporte a elas, inclusive engrossando o número de lançamentos exclusivos do Record Store Day.

O número de títulos exclusivos aumentou tanto que, em 2010, os organizadores do Record Store Day resolveram criar uma segunda data anual para promover uma nova leva de lançamentos. Desde então, durante a Black Friday — após o feriado de Ação de Graças, em que o comércio dos EUA realiza uma grande queima de estoque para comemorar os resultados do ano —, uma nova série de lançamentos inunda as lojas independentes de discos.

A cada ano, o número de lançamentos especiais exclusivos apenas cresce. E graças a nova realidade do meio musical — com mais pessoas consumindo música em formato físico — a existência das lojas parece ter sido assegurada por mais tempo. Obviamente, não foi apenas o Record Store Day que proporcionou esse ressurgimento do interesse público pelos estabelecimentos de comércio de discos. Porém, a data ainda simboliza um dia de resistência cultural! E também é (mais) uma bela desculpa para fãs, colecionadores e audiófilos fazerem aquilo que mais gostam: torrar toda a grana em discos! Comemore!

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